terça-feira, 30 de dezembro de 2025

Rádio AM: soberania, memória e infraestrutura: não apenas áudio! O AM vai morrer?

 


O AM vai morrer?

Rádio AM: soberania, memória e infraestrutura: não apenas áudio!

“Um povo que não conhece e não valoriza a sua história está condenado a repetir os erros do passado.” Essa frase não se aplica apenas à política ou à cultura. Ela se aplica, de forma direta e inequívoca, à infraestrutura de comunicação.

O debate sobre o fim do rádio AM (onda média) tem sido conduzido, em muitos países, sob um argumento simplista: a suposta inferioridade da qualidade de áudio. Trata-se de uma justificativa tecnicamente frágil e estrategicamente perigosa.

AM nunca foi sobre hi-fi. Sempre foi sobre alcance, resiliência e soberania.

1. O falso argumento da “qualidade de áudio”!

Comparar AM com FM, streaming ou rádio digital exclusivamente pelo critério de fidelidade sonora é um erro conceitual.

O rádio AM foi concebido para:

a) cobrir grandes áreas geográficas com poucos transmissores;

b) operar com alta robustez em condições adversas;

c) permitir recepção com equipamentos simples, baratos e duráveis;

d) funcionar como meio de comunicação de emergência, inclusive durante apagões elétricos.

Nenhuma dessas características é substituída integralmente por FM, DAB+, IBOC e DRM demais modos digitais, bem como internet e seus aplicativos.

Eliminar o AM porque “o som é pior” equivale a eliminar navios cargueiros porque aviões são mais rápidos.

2. A quem interessa o enfraquecimento e o fim do AM?

O enfraquecimento do AM não é neutro. Ele atende a interesses específicos.

a) Interesses econômicos:

a1) Transmissores AM de alta potência exigem manutenção e energia.

a2) A migração para FM ou streaming fragmenta cobertura, exigindo múltiplos transmissores.

a3) Plataformas digitais criam dependência de infraestrutura privada, dados móveis e servidores.

a4) O amadorismo na locução baixas custos com o RH.

b) Interesses políticos e de controle

Historicamente, o AM:

b1) alcança regiões periféricas e rurais;

b2) cruza fronteiras naturais;

b3) é difícil de silenciar completamente.

Não por acaso, o AM sempre foi considerado infraestrutura estratégica em contextos de guerra, crise ou desastres naturais.

Eliminar o AM significa reduzir canais resilientes de comunicação pública.

3. Por que outros países não seguem esse caminho?

Porque tratam rádio como infraestrutura nacional, não como moda tecnológica.

Estados Unidos: Mais de 4.300 estações AM ativas, sem qualquer plano federal de desativação. O AM integra sistemas de alerta e emergência, e há debate público para sua preservação inclusive em veículos elétricos.

México, Argentina, Colômbia: AM ativo, sem políticas nacionais de desligamento. O foco é complementaridade, não substituição.

Índia, Paquistão, Bangladesh, Filipinas, Indonésia: Países continentais, com enormes áreas rurais, onde o AM é insubstituível para cobertura nacional.

Oriente Médio, África e Oceania: O AM segue ativo por necessidade prática, não por nostalgia.

Esses países entenderam algo essencial: rádio AM é soberania comunicacional.

4. O risco da amnésia tecnológica!

Desativar o AM sem garantir um substituto equivalente em alcance, independência e resiliência é repetir erros históricos:

a) troca-se autonomia por dependência;

b) substitui-se infraestrutura pública por plataformas privadas;

c) perde-se memória técnica, cultural e humana.

Isso não é modernização!

É desmonte estratégico travestido de inovação.

5. Conclusão.

O rádio AM não compete com FM, streaming ou digital.

Ele complementa, protege e garante continuidade.

Os países que mantêm o AM não estão atrasados.

Estão preparados.

Preservar o AM não é resistir ao futuro.

É garantir que o futuro não dependa de um único ponto de falha.


Frederico Westphalen, RS, 25/12/2025

Mauro de Souza / Curador do Museu da Eletrônica

Breve comentário: A modulação AM continua sendo utilizada em Ondas Curtas, na aviação e no radioamadorismo por um motivo essencial: segurança operacional.

Em AM, quando duas transmissões ocorrem simultaneamente na mesma frequência, ambas podem ser ouvidas mesmo que uma seja mais fraca. Isso permite, por exemplo, que um chamado de socorro seja percebido ao fundo de uma transmissão mais forte.

Já no FM ocorre o chamado efeito de captura: o receptor prioriza apenas o sinal mais forte, suprimindo os demais. Em situações críticas, isso pode impedir que uma transmissão de emergência seja ouvida.

Por essa razão, o AM segue sendo preferido em comunicações onde confiabilidade e segurança são mais importantes do que a qualidade de áudio.

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